O palco era grande, iluminado e colorido por
cortinas vinho escuras, que caiam pesadamente seguradas por cordas beges,
feias, impróprias. Um bando de crianças andava desconfortavelmente lá em cima,
olhando umas para as outras como se analisassem a concorrência, enquanto Dona
Elsa, a gorda diretora do teatro, comandava-as.
Eu estava sentada na plateia, observando a cena com
meus fones de ouvido no volume máximo, quando um garoto sentou-se ao meu lado.
Sabia que ele era do mesmo ano que eu, mas não da mesma sala. Seus olhos
estavam cobertos por uma estranha camada de cabelos encaracolados, e eu me
virei, esperando que ele explicasse porque tinha se sentado ao meu lado,
enquanto havia um auditório inteiro vazio e ele podia se sentar em qualquer
outro lugar. Mas ele não me encarou. Decidi ignorá-lo, e me virei novamente
para o palco.
Já era o final da tarde, e eu estava ali apenas
esperando meu irmão mais novo, Lucas, sair do coral da escola para que
pudéssemos ir juntos para casa. Normalmente, os ensaios eram hilários, com
muita gritaria desafinada. Hoje, eu estava desanimada, e queria somente chegar
em casa. O dia já tinha sido péssimo, e a cantoria era apenas mais uma de suas
desgraças.
Encarei o caderno que segurava nas mãos, esperando
que uma solução para os meus problemas se apresentasse ali, como que por
mágica. Faltava apenas uma semana para meu teste final de teatro, e a tarefa
era apresentar uma peça completa, bem estruturada, já apresentando os detalhes
de toda a produção. Apesar de normalmente ser uma pessoa inventiva, minha
imaginação tinha escolhido aquela semana para se ausentar, e eu não conseguia
criar um enredo, e muito menos elaborar uma peça inteira.
Enquanto observava meu irmão cantar seu solo,
pensando em como os pais não deviam incentivar os filhos a fazerem coisas nas
quais não eram bons, considerei escrever uma daquelas peças românticas, em que
a moça encontra o moço e eles vivem felizes para sempre depois de alguns
conflitos. Mas fiquei envergonhada por ao menos ter considerando essa
possibilidade. Romances eram para pessoas com bloqueio criativo, pensei. E
então me lembrei de que aquela era exatamente eu: uma inútil artista com
bloqueio criativo.
O menino ainda estava ao meu lado. Era silencioso,
misterioso. Eu nem sabia seu nome, mas sabia que havia estudado com ele a vida
toda. Era um pouco vergonhoso, na verdade. Inclinei-me discretamente para o
lado, e consegui ver a etiqueta em seu caderno. Armando Pereira, li. Um nome estranho que correspondia ao dono,
pensei. Decidi que aquele seria o nome do personagem principal de minha peça, e
me orgulhei por ter começado a me mover e a escrever no papel vazio.
Voltei ao meu lugar e o descrevi: um menino
estranho, de cabelos longos e encaracolados que cobriam a face, deixando-o com
um ar misterioso, perigoso e inalcançável. Então notei que havia uma tatuagem
em seu pulso. Apesar de não conseguir ver direito, enxerguei duas armas
apontando uma para a outra, formando um triângulo, e números aleatórios de cabeça
para baixo.
Comecei a perder-me em devaneios enquanto encarava
descaradamente o garoto, imaginando mil possibilidades de histórias. Suas
roupas desleixadas, sujas, demonstravam falta de uma figura feminina. Mas a
postura inferior, nada máscula, revelava também a falta de uma presença
masculina. Talvez seus pais tivessem morrido em um naufrágio. Talvez ele
morasse com sua tia. Provavelmente ela era solteirona, e saía aos sábados com o
rosto entupido de maquiagem e as pernas a mostra para tentar arrumar um
pretendente. Ela deve trabalhar muito, pensei. Não é fácil manter por si só um
garoto adolescente. Ela mal deve saber o que ele faz enquanto ela trabalha, enquanto
sai em busca de algo animador em sua vida monótona. Ele provavelmente é
revoltado, louco por vingar-se seja lá de quem tenha lhe dado vida tão injusta,
tão indigna. Ele definitivamente mantém armas em seu poder, o que não explicaria
propriamente sua tatuagem, mas talvez algo que ele tenha feito. Talvez ele
mesmo tenha matado os pais. Talvez planeje matar a tia. Talvez esteja
planejando matar a mim, logo agora, nesse auditório vazio pois todas as crianças
já desceram do palco e estão nos camarins em busca de suas mochilas para
finalmente poderem ir tranquilamente para seus adorados lares onde estarão
seguras, quentes e bem alimentadas...
- Com licença. – dei um pulo ao ouvir a voz do
garoto pela primeira vez. Ele finalmente me olhava nos olhos e eu podia jurar
ter visto sua mão se mover para dentro do casaco, em busca das armas que o
caracterizavam, com certeza. – Posso ajudar?
Eu provavelmente o tinha encarado durando todos
aqueles minutos. Ele ia me matar, definitivamente.
- Ah. – murmurei inteligentemente. – Só estava
interessada na sua tatuagem.
Ele sorriu um sorriso macabro, digno de assassino.
- Fiz no acampamento. – explicou ele.
Arqueei minhas sobrancelhas.
-Acampamento?- Acampamento para treinamento em
assassinato?
- Sim, no acampamento de números. A data em baixo
marca o dia em que fui o único a resolver o desafio do final de verão.
Reparei então que as duas armas eram, na verdade,
dois esquadros. Algo em mim murchou, provavelmente a parte detetive aventureira
que desejava uma real história para contar, uma história de sangue e batalhas
em um mundo injusto.
- Ah, certo. Legal.
Meu irmão então chegou e nós fomos para casa.
Armando Pereira ficou para trás enquanto eu me afastava, mas eu estava
suficientemente satisfeita. Finalmente, tinha meu enredo. Ele podia não ser
verdadeiro, mas havia tempos que eu havia aceitado que, as vezes, a ficção é
melhor que a realidade.
Nossa, adorei, você escreve muuuito bem e acho que deveria investir nisso? Hmmm esse texto é só ficção mesmo?! hahaha
ResponderExcluirAdorei o blog
Beijão,
www.garotaroyal.blogspot.com
Muuuito obrigada! :) E sim, é só ficção haha
ExcluirEstou chocada, muito bom de ler, eu queria mais e mais, é intrigante ao mesmo tempo. É seu talento nato.
ResponderExcluirParabéns!!!
Mil beijos
♡♡♡♡♡♡♡♡♡♥♥♥♥♥♥
Obrigada <3
ExcluirGostei bastante.Continua escrevendo e sempre guarde todos os rascunhos.Eles as vezes parecem bobos,porem mais tarde podem se tornar interessantes e podem ser aperfeiçoados
ResponderExcluirObrigada!
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